Recomendo os livros a todos.
A longa migração do temível tubarão branco. Lourenço Cazarré. Fundação Cultural de Curitiba.
Jornalista rio-grandense radicado em Brasília, Verga é colunista de jornal e comentarista de TV, viciado em trabalho, sofre um infarto a caminho da redação e é internado em uma clínica. É um repórter padrão: sujeito estressado viciado em leitura de jornais e que se considera um intelectual quando lê livros-reportagem escritos por colegas jornalistas.
Verga narra o infarto que sofreu, o atendimento de emergência, a experiência da clínica e o encontro com um médico tão cínico quanto ele. A única preocupação do jornalista acima do peso e estressado, é ter de volta seu celular para ligar para o jornal e ditar as notas de sua coluna, ou ler as notícias do dia, ou falar com as fontes em busca de informação. Só lateralmente ganha espaço em seus pensamentos a família formada por uma esposa psicóloga e três filhas com as quais o personagem não mantém nenhuma identificação.
Obcecado por escrever a qualquer custo, Verga ouve uma proposta de seu médico. Poderá ter seu computador de volta enquanto estiver internado, mas apenas para escrever sobre a própria vida, buscando desencavar em seu passado as razões do infarto. É nessa tarefa de se recontar que Verga vai se despindo do personagem “jornalista puro-sangue” que havia construído para si e lançando um olhar para a vida que perdeu “garimpando no éter” do mundo das notícias: “Fiquemos com esse número: ao longo de minha vida adulta - trinta anos - li jornais durante vinte e uma mil horas. Crimes tragédias, bizarrices e fofocas. É um bocado de lixo”.
A epígrafe do livro traz, em italiano, versos da Divina Comédia de Dante Alighieri que já fornecem uma chave para o entendimento do romance: “O vós, que tendes o intelecto são / observai a doutrina que se esconde / sob o véu destes versos estranhos.” Ao longo de 42 capítulos, todos titulados com versos da Comédia em italiano, vamos acompanhando a trajetória do protagonista como se de uma Humana Comédia se tratasse. Internado, Dante Verga (o nome não é coincidência, ao unir o Dante da Comédia com o realista Giovanni Verga) vai se afastando da engrenagem em que havia transformado sua vida e seu trabalho para se humanizar gradativamente. Uma transformação que é também da linguagem. Enquanto esgrime diálogos brutais com o médico, as enfermeiras e sua mulher, Verga e seu cinismo passam uma imagem de estranhamento artificial, como um ator que declamasse suas falas em uma farsa. É ao escavar seu passado e redescobrir a si mesmo que Verga aprende outra a vez a ser humano – e a falar como um.
A epígrafe do livro traz, em italiano, versos da Divina Comédia de Dante Alighieri que já fornecem uma chave para o entendimento do romance: “O vós, que tendes o intelecto são / observai a doutrina que se esconde / sob o véu destes versos estranhos.” Ao longo de 42 capítulos, todos titulados com versos da Comédia em italiano, vamos acompanhando a trajetória do protagonista como se de uma Humana Comédia se tratasse. Internado, Dante Verga (o nome não é coincidência, ao unir o Dante da Comédia com o realista Giovanni Verga) vai se afastando da engrenagem em que havia transformado sua vida e seu trabalho para se humanizar gradativamente. Uma transformação que é também da linguagem. Enquanto esgrime diálogos brutais com o médico, as enfermeiras e sua mulher, Verga e seu cinismo passam uma imagem de estranhamento artificial, como um ator que declamasse suas falas em uma farsa. É ao escavar seu passado e redescobrir a si mesmo que Verga aprende outra a vez a ser humano – e a falar como um.
A Misteriosa Morte de Miguela de Alcazar - Lourenço Cazarré, Bertrand Brasil
Embebido… Não. Encharcado (o narrador certamente esculhambaria o primeiro adjetivo como algo incrivelmente pernóstico) de frases ferinas, sarcasmo feroz e deboche deslavado, este A Misteriosa Morte de Miguela de Alcazar é um típico Lourenço Cazarré. Imagine um improvável simpósio dos maiores escritores de romances policiais do planeta. Coloque-o em um hotel chinfrim em uma não menos improvável Brasília. Está pronto o cenário para esta sátira escrachada de um romance policial — com pitadas de estudo quase científico das entranhas do jornalismo e da literatura.
Para completar o quadro, o narrador e personagem principal desta história é um estranhamente verossímil repórter policial gaúcho, Campestre de Campos Campelo. O dito-cujo percorre a capital federal em um Fusca amarelo ano 1968, “vulgarmente conhecido” como “Revolução de Maio”, e armado apenas de impagáveis reflexões filosóficas e de um dialeto gaudério de rolar de rir. Intimado pelo editor do jornal onde trabalha, o Correio de Brasília, Campestre vai até o Brasília Palace para checar a informação de que o local estava realmente abrigando o Primeiro Congresso Internacional de Escritores de Histórias Policiais. “Num jornal, você pode tudo: mentir descaradamente, vitaminar os fatos e embelezar a realidade. Só não pode desobedecer a uma ordem, mesmo que estúpida”, sentencia nosso herói ao aceitar a missão.
Para pasmo do gaúcho, ele não só confirma a realização do evento — até então secreto — como também descobre que uma das ilustres convidadas, a espanhola Miguela de Alcazar y Casas de Bourbon, havia sido assassinada. Quem seria o culpado? Um dos colegas da literata, movido pelo sempre presente e à mão motivo da inveja irracional pelo sucesso alheio? A busca de Campestre pelo assassino é uma saga hilária.
Nadando contra a morte. Lourenço Cazarré. Formato.
Vinda do interior para trabalhar como doméstica com uma família de classe média, Maria do amparo, 14 anos, foi estuprada pelo patrão e engravidou. A menina consegue esconder da patroa a gravidez, mas não a criança. E recebeu um ultimato: que se livrasse dela. Desesperada, depois de andar a esmo pelas ruas, Maria do Amparo se atira no rio com a filhinha.
A história de Maria do Amparo e seu salvamento por dois esportistas (um nadador e um remador) é narrada por meio de depoimentos da menina, do nadador, do remador, do capitão do Corpo de Bombeiros, que tira todos do rio, e de outras personagens que presenciaram os fatos.
Numa agilidade de reportagem, a história tem a dose exata de emoção. Forte e expressivo é, também, o trabalho de Ana Raquel, que, numa composição alegórica, funde pessoas e animais, partindo do que mais os aproxima: o instinto de criação, de destruição, de preservação da vida.
Fonte: Editora Formato.
Nascido em Pelotas, RS, em 1953, Lourenço Cazarré é autor de mais de 35 livros, entre novelas juvenis, contos e romances. Participa de 17 antologias de contos. Recebeu mais de 20 prêmios literários de âmbito nacional, tendo vencido por duas vezes o maior certame literário dos anos 80, a Bienal Nestlé, nas categorias romance, com O Calidoscópio e a Ampulheta (1982), e contos, com Enfeitiçados Todos Nós (1984). Um de seus livros para jovens, Nadando contra a Morte, recebeu o Prêmio Jabuti, em 1998, e o selo de “Altamente Recomendável para Jovens”, da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ).
O autor ganhou ainda o Concurso Nacional de Contos Josué Guimarães, em 1993, e o Prêmio Brasília para Livros Juvenis, em 1990. Em 2002, recebeu o Prêmio Açorianos da Prefeitura de Porto Alegre, pelo melhor livro de contos, Ilhados.
Teatrólogo, Lourenço Cazarré foi premiado no Concurso Nacional de Dramaturgia da Funarte (regiões Norte e Centro-Oeste), em 2005, com a peça Umas Poucas Cenas Vistas do Caos.
O autor ganhou ainda o Concurso Nacional de Contos Josué Guimarães, em 1993, e o Prêmio Brasília para Livros Juvenis, em 1990. Em 2002, recebeu o Prêmio Açorianos da Prefeitura de Porto Alegre, pelo melhor livro de contos, Ilhados.
Teatrólogo, Lourenço Cazarré foi premiado no Concurso Nacional de Dramaturgia da Funarte (regiões Norte e Centro-Oeste), em 2005, com a peça Umas Poucas Cenas Vistas do Caos.

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